Morro de medo de te sufocar
com as minhas inseguranças
lamúrias, frescuras, coisa de criança…
porque quando se gosta de alguém,
se parte em dois, se faz muralha
se acha agulha em palha,
mas não se desiste.
E todo o tempo do mundo
parece insuficiente, escasso
como se fosse um fracasso
o aproveitamento do momento
Mas até o nada parece divertido
quando tenho como companhia
teu calor no meu peito
tem melhor euforia
do que amar em silêncio?
De uns tempos pra cá, depois de passar por uma crise existencial em plenos 17 anos, isto é, perceber que eu não sou a criança prodígio que minha mãe acreditava ser (e certamente a única pessoa a qual me interessa a opinião), também me refiz. Me reconstruí. Passei por dias ruins. Experimentei aquele sentimento horrível da auto-decepção. Corri atrás de atividades que tornassem meus dias mais edificantes mas o resultado não foi imediato como eu tanto esperava.
Eis que surgiu uma oportunidade de dar aulas (pra quem não sabe, sou uma aluna do curso normal, vulgo magistério) como estagiária em uma escola pequena no bairro central.
A proposta foi repentina, no dia seguinte lá estava eu, sem nada planejado, apenas com a cara e a coragem. Aceitei o desafio de corpo e alma e decidi seguir o modelo de um mosaico das melhores professoras e professores que já tive.
De início, nos primeiros dois dias não tive muito resultado. A turma é bem pequena e as crianças, a maioria classe média-baixa.
Mas com o passar dos dias, algo em mim foi mudando. Meu empenho em fazer daquelas aulas um momento de aprendizagem dinâmico ultrapassou aquela enfadonha obrigação de seguir as normas da “professorinha” e fazer apenas o possível. Eu descobri que estou me lixando pra nota (avaliação do meu trabalho), e que educar é fazer o impossível acontecer.
Descobri que eu tenho o potencial que minha mãe acreditava e que meu verdadeiro Thelema (vontade) é seguir o caminho da docência. É extremamente edificante quando se tem uma resposta pelo esforço.
Descobri que tenho capacidade de assumir responsabilidades e que o sistema de educação público brasileiro não só é falho por culpa do governo que não libera verbas ou não investe em educação.
Estou acompanhando de perto que o maior problema da educação brasileira começa em casa e não é corrigida na escola. Outro ponto que prejudica profundamente a construção de saberes dos educandos é o descaso de alguns professores.
Certas atitudes e formas de pensar estão tão enraizadas nos educandos que parece impossível mudar a realidade de um aluno visto como delinquente ou mau elemento. São justamente esses excluídos que deveriam ser mais amparados pela escola, não tratados como uma escória.
Quanto ao descaso docente, se reproduz aquele sistema de recompensa-aprovação, onde o aluno bem comportado sempre será ouvido e terá a razão (discordo profundamente desse conceito).
Em resumo dos fatos, essas crianças me mostraram quem eu realmente sou, e em nome de todo o trabalho e incomodações que irão surgir, eu estou satisfeita com a conjuntura das circunstâncias.
Não se nasce sendo professor, se aprende, e se aprende errando até acertar.
Aqueles olhos azuis tão tristes
Compactuando com um sorriso tão despretensioso
Desenhavam uma expressão de rapaz simpático
Tinha uma aura de pessoa boa
Um cheiro de armário de avó
Uma voz aconchegante
Uns cabelos castanhos e macios
Toda vez que pensava nele
Sentia aquilo que só se sente
Numa manhã de inverno:
Vontade de aninhar-se em cobertas
Mas ao invés das cobertas
Preferiria os braços dele
Envolvendo-me firmemente
Hoje é dia 27 de janeiro. Jornais de todo o país irão expor numa vitrine o sofrimento das famílias que perderam aqueles jovens. Hoje é domingo. Um domingo que antecedeu uma breve introspecção minha. Um dia mais pesado do que o normal, como um aviso de que o ano é para mudanças drásticas.
Nem de perto o que eu sinto é pena. Nasci em Santa Maria RS há 17 anos atrás e se alguns eventos da minha vida tivessem sido diferentes, logo poderia ser eu, uma dos vários jovens que morreram carbonizados.
Na minha visão egoísta e exclusivista do mundo, vidas vão e vem, é a cadeia que rege algumas leis fundamentais da vida. Existência e mudança.
Mas e como lidar com as mudanças assim, sem apego nenhum a nada? Hoje você acorda e acha sua vida monótona, toma um café, assiste ao noticiário, vai pro trabalho, volta pra casa e dorme. Amanhã aquele castelo de cartas entediante que é a sua vida desmorona com um brisa e você percebe que não é ninguém e nada te pertence.
Existência e mudança, o universo vibra e está em constante transformação. Só o que cabe a nós é a aceitação e a adaptação.
Expectativas quase sempre são o prelúdio da decepção, mas como viver sem? A expectativa sempre me moveu no âmbito afetivo da minha vida, logo me deparei com as decepções externas e também internas que nos fazem amadurecer.
Se tudo que aconteceu não me deixou mais forte, pelo menos me deixou mais “cara de pau”, mais individualista e mais focada nos meus objetivos.